Ponto de partida
Uma comunidade, muitos caminhos
A tradição islâmica reúne, em torno do Alcorão e da Sunnah, uma pluralidade de escolas jurídicas, teológicas e espirituais. Essa diversidade não surgiu por acaso: nasceu de perguntas concretas sobre quem deveria conduzir a comunidade, como interpretar o texto revelado e que peso dar à razão diante da revelação.
“E agarrai-vos todos, juntos, à corda de Allah, e não vos separeis.”Alcorão 3:103 ↗
Esta página descreve as correntes tais como se apresentam e se compreendem a si mesmas. Não arbitra entre elas, não declara qual está correta e não trata nenhuma como desvio das demais.
A questão fundante
A sucessão do Profeta ﷺ
A distinção mais antiga entre as correntes remonta ao que aconteceu após o falecimento do Profeta ﷺ, em 632, e à pergunta sobre quem deveria conduzir a comunidade.
Uma leitura sustenta que a comunidade deveria escolher seu líder, e reconhece como legítima a sucessão de Abu Bakr, seguido por Umar, Uthman e Ali — os quatro primeiros califas. A liderança é entendida como função de governo, não como continuação da profecia.
Outra leitura sustenta que Ali ibn Abi Talib, primo e genro do Profeta ﷺ, havia sido designado como sucessor, e que a autoridade permanece na descendência do Profeta ﷺ por meio de Ali e Fátima, com dimensão espiritual além da política.
Divergência reconhecida, apresentada sem arbitragem editorial
Ahl al-Sunnah wa al-Jamā'ah
Sunismo
Corrente majoritária, reunindo cerca de 85% a 90% dos muçulmanos. O nome remete à Sunnah do Profeta ﷺ e ao consenso da comunidade como referências de orientação.
Quatro escolas de direito (madhāhib)
O direito islâmico sunita organizou-se historicamente em quatro escolas, todas reconhecidas entre si como válidas — a diferença está no método, não na fé:
Abū Ḥanīfa (699–767)
Recorre amplamente ao raciocínio jurídico. Predominante na Turquia, na Ásia Central e no subcontinente indiano.
Mālik ibn Anas (711–795)
Dá peso particular à prática estabelecida de Medina. Predominante no norte e no oeste da África.
Al-Shāfi'ī (767–820)
Sistematizou a relação entre hadith e raciocínio. Predominante no Sudeste Asiático, no Egito e na África Oriental.
Aḥmad ibn Ḥanbal (780–855)
Adere de forma mais estrita ao texto. Predominante na Península Arábica.
Duas escolas de teologia
Na teologia (kalām), duas escolas próximas entre si tornaram-se referência: a Ash'ariyya, de al-Ash'arī (874–936), e a Māturīdiyya, de al-Māturīdī (853–944). Ambas procuram um caminho intermediário entre o literalismo e o racionalismo, com diferenças de nuance sobre o alcance da razão humana.
Shī'at 'Alī
Xiismo
Corrente que reúne cerca de 10% a 15% dos muçulmanos, com presença concentrada no Irã, no Iraque, no Bahrein, no Azerbaijão e no Líbano.
Seu eixo é o imamato: a convicção de que a orientação da comunidade cabe a uma linhagem de Imams descendentes de Ali e Fátima, com autoridade reconhecida para interpretar o Alcorão e a lei.
Ithnā 'Ashariyya
Maioria xiita. Reconhecem doze Imams; o décimo segundo entrou em ocultação em 874 e é esperado ao fim dos tempos. Nesse intervalo, os estudiosos exercem função de orientação.
Ismailismo
Divergem quanto ao sétimo Imam, seguindo Ismāʿīl ibn Ja'far. A comunidade nizarita reconhece hoje a liderança do Aga Khan.
Zaidismo
Em várias questões jurídicas aproximam-se das posições sunitas. Presentes sobretudo no Iêmen.
Práticas próprias
A Ashura assinala o martírio de Husayn, neto do Profeta ﷺ, em Karbala, em 680 — data de luto e de reflexão sobre justiça e sacrifício. As formas de comemoração variam bastante entre regiões, e as expressões de autoflagelação praticadas em alguns contextos são objeto de crítica dentro do próprio xiismo, inclusive por autoridades religiosas.
A taqiyya autoriza ocultar a própria fé sob risco de perseguição. O marja' al-taqlīd é o estudioso vivo cuja orientação jurídica o fiel escolhe seguir.
Taṣawwuf
Sufismo
O sufismo é a dimensão interior e mística da tradição, voltada à purificação do coração, à lembrança constante de Allah e ao amor divino. Não é uma corrente paralela ao sunismo e ao xiismo: há sufis dentro de ambos. Formou-se nos primeiros séculos do Islã, em boa medida como reação ao formalismo e ao apego ao mundo.
Noções centrais
Tazkiyah é a purificação da alma — o trabalho contra o ego (nafs) e o cultivo das virtudes. Dhikr é a lembrança de Allah pela recitação de Seus nomes e de fórmulas corânicas, em voz alta ou em silêncio, sozinho ou em grupo. Fanā' designa a dissolução do ego diante da presença divina, e baqā' a subsistência em Deus que se lhe segue; a tradição sufi é explícita em distinguir isso de qualquer identificação entre a criatura e o Criador. A ṭarīqa é o caminho iniciático de uma ordem, conduzido por um mestre (shaykh).
Algumas ordens
Figuras de referência
Rābi'a al-'Adawiyya
Mística de Basra. Sua contribuição maior é a ideia de um amor a Deus desinteressado, que não busca recompensa nem teme castigo.
Al-Ḥallāj
Executado em Bagdá após declarar “anā al-ḥaqq”. A frase foi lida como blasfêmia por seus contemporâneos; leituras posteriores a interpretam como expressão de aniquilação mística. A controvérsia permanece.
Ibn 'Arabī
Formulou a doutrina da unidade do ser (waḥdat al-wujūd), influente e contestada desde sua própria época.
Jalāl al-Dīn Rūmī
Poeta de língua persa. O Mathnawī e o Dīwān-e Shams estão entre as obras mais lidas da literatura espiritual.
Divergência reconhecida: movimentos de orientação reformista consideram determinadas práticas sufis — sobretudo a veneração de santos e de túmulos — como inovação (bid'ah). Os sufis respondem que preservam a dimensão interior do Islã. A controvérsia é antiga e continua viva.
Pensamento
Pensadores que formaram a tradição
Al-Ghazālī
Teólogo, jurista e místico. Em Iḥyā' 'Ulūm al-Dīn reaproximou a espiritualidade sufi do ensino sunita, e em outra obra dirigiu crítica severa às pretensões da filosofia de seu tempo.
Ibn Rushd (Averróis)
Filósofo e juiz andaluz, comentador de Aristóteles. Defendeu que razão e revelação não se contradizem. Sua obra teve peso decisivo na escolástica latina.
Ibn Taymiyya
Teólogo de rigor textual, crítico do que entendia como inovações. Seu pensamento é referência central para movimentos reformistas posteriores.
Muhammad Iqbal
Poeta e filósofo. Propôs uma reconstrução do pensamento religioso no Islã, insistindo no ijtihād — o esforço interpretativo — diante das condições modernas.
Fazlur Rahman
Defendeu uma leitura atenta ao contexto histórico da revelação, distinguindo princípios permanentes de suas aplicações circunstanciais. Proposta influente e debatida.